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Data: 31/07/2010
O paraíso do "Póca" (Célio Simões)

 

 

                Ele existe sim e fica coisinha pouca passando o bucólico Igarapé do Curuçambá, esse repositório de prazer incrustado na estrada que leva à comunidade do Cipoal.

                Sobre sua existência, eu é que não sabia.

                Neste calorento julho de 2010, minha estada em Óbidos estava jungida aos preparativos da sessão solene de sua Academia Artística e Literária, para admissão de três novos membros e tudo estava por fazer. Com a ajuda de amigos, colocamos mãos à obra, porque não fica bem promover um evento dessa magnitude sem dispensar aos convidados um tratamento vip, a começar por um escorreito cerimonial, que não comporta tropeços.

                Assim, haja trabalho. Enquanto isso, o sentido literal da palavra “férias” ia ficando em segundo plano. Nos contatos com os que foram de Belém em busca de paz, sombra e água fresca - não nessa ordem – ouvia eu a insinuação instigante: Estive no Curuçambá, uma maravilha! Quando não: Já fostes ao Curumú? A água está convidativa e os peixes saborosos. Fui obrigado a declinar de um passeio de lancha ao Mamaurú, cartão postal que não vejo há trinta anos, para tristeza do amigão de infância Carlos Antônio Silva.

                Recebi a interpelação da minha própria esposa: Quer dizer que você veio para cá, sua cidade natal, apenas para trabalhar? E a vida estressada de Belém, vai ficar do mesmo jeito?

                Com razão minha cara metade. Só que eu já tinha perdido quase todos os convites para os passeios pelos recantos ecológicos, alguns intocados, que fazem a festa dos amantes da vida mansa e sem pressa dos moradores do interior.

                Ana Rosa é uma sobrinha querida que por força da conveniência familiar e profissional atualmente mora em São Paulo e vive saudosa das boas coisas obidenses. Dela partiu o convite para conhecermos a fazenda do “Póca”, onde com os demais da família passariam a quinta-feira, para um gostoso banho de igarapé. Polidamente recusei. Ainda faltavam os “finalmente” para a solenidade, algumas reuniões, entrevista na Rádio Comunitária. Quando é assim, melhor não firmar compromisso.

                O que eu nem desconfiava é que no dia aprazado para o dito passeio, consegui cumprir meus afazeres e de repente se afigurou o tempo livre que eu vinha aspirando para o merecido relax. Fátima e eu resolvemos chamar um táxi para nos levar na dita fazenda, onde passaríamos o dia no bem-bom. Aí veio a dúvida. Onde ela fica? Em cidades pequenas, tudo se sabe, porque tudo se pergunta. De pé na calçada, no sentido de quem desce a rua principal, havia um sujeito com ar calmo e foi para ele que nos dirigimos:

-           Bom dia! O senhor poderia nos informar onde fica a Fazenda do Póca?

-           Sei sim... Por quê?

-           E aonde é? Nós queremos ir para lá...

-           E quem são vocês?

-           Eu sou tio da Ana Rosa, que é filha do Haroldo Amaral que me convidou...

-           Tudo bem. Eu também sou primo do Haroldo e da Ana Rosa e filho do “seu” Romualdo Amaral. E essa casa aí defronte é do meu pai.

-           O senhor é quem?

-           Eu sou o Póca!

                Muita sorte a nossa. Aquele camarada ali postado, de expressão plácida, era ninguém menos que o dono da fazenda, primo da minha prima, e estava se oferecendo para nos conduzir ao local que, conforme eu constataria mais além, não é uma propriedade rural qualquer e sim, uma jóia engastada na senda que leva ao Cipoal. Não à toa, meu saudoso tio João Anastácio vivia repetindo que no interior, quem não é parente, é amigo ou estaca do quintal. Pelo visto, tinha razão.

                Passamos um dos melhores dias que alguém pode desfrutar num ambiente campestre. A fazenda é grande, bem cuidada, a casa-sede (que ostenta uma atrativa churrasqueira) fica num vale cercado de suaves colinas, onde o numeroso rebanho desfruta de excelente pastagem e se pode cavalgar em montarias mansas, dando a impressão de que são treinadas para não assustar os visitantes.

                Foi um dia de rei. Elas por elas, que me perdoe o Igarapé do Curuçambá, onde o alarido do som alto ultraja o sossego dos banhistas. Além do delicioso churrasco, o melhor ainda viria, quando nos foi franqueado o banho no cinematográfico lago de águas translúcidas, visitado por garças e piaçócas, propositadamente frias para mitigar o calor do verão tropical, isento de perigo porquanto a transparência permite vislumbrar o que acontece no leito coberto de algas que lhe emprestam a cor quase esmeralda. A meninada esbaldou-se, naquilo que os egípcios já chamavam de “terapia da água”.

                Não havia como parar o relógio-tempo e os veículos que conduziram o numeroso grupo se apresentaram para o retorno. Não há bem que sempre dure nem mal que nunca se acabe. Só de arrumação da tralha, mais de meia hora, suficiente para testemunhar a despedida do delicioso dia desfrutado na fazenda do Póca. Em fila indiana deixamos o local, com o cuidado exigido pela estrada carroçável, que a cabine dupla traçada ia vencendo sem dificuldade.

                De repente a frenagem brusca do veículo à nossa frente. Pneu furado, pensei. Não era. O motorista prevalecera-se de sua habilidade (a carteira não fora tirada na “Porta da Esperança”, do Sílvio Santos...) para não esmagar um jabuti, que fleumaticamente atravessava a estrada, alheio a nossa euforia pelo excepcional dia vivido longe da maluquice das grandes cidades.

                Desceram uns, outros não. Leva o jabuti. Não leva o jabuti. Onde mesmo ficou aquele leite de castanha, que faz a gente suar frio? O grupo restou dividido e o problema teria que ser equacionado ali mesmo. Apreciando tudo, impávido, o quelônio limitava-se a piscar, como a lembrar de forma sub-reptícia: “Cuidado, sou um animal protegido. Olha a Federal...”

                Improvisamos um júri para selar o destino do jabuti. Acusação de um lado, defesa do outro, preparamos o libelo acusatório. Nada obstante, faltou o principal. Que delito havia ele cometido, salvo andar despreocupado naquela vastidão verde que Deus criou para todos os seres vivos? Prevaleceu a lógica. Por determinação da maior autoridade presente – o Póca – foi o carumbé de imediato devolvido à natureza, decisão escorada num argumento irretorquível. A fazenda era de sua propriedade, pois assim consta no Cartório. Mas os animais silvestres escapavam aos seus domínios, pois quando a adquiriu, todos dela já haviam se tornado donos.

 

 

(*) Membro da Academia Paraense de Letras Jurídicas.

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